Hemorragia induzida pelo veneno da jararaca tem mecanismo esclarecido

5 agosto 2010 371 visitas Não há comentários

Por Ana M. Moura da Silva – Laboratório de Imunopatologia do Instituto Butantan

Pesquisa desenvolvida no Laboratório de Imunopatologia do Instituto Butantan, com apoio do INCTTox, explica mecanismo de ação de toxina do veneno de jararaca responsável pela hemorragia após picada e traz novas perspectivas para o desenvolvimento de medicamentos

O veneno da jararaca pode provocar lesões no local da picada, tais como hemorragia e necrose que podem levar, em casos mais graves, a amputações dos membros afetados.

Uma das toxinas responsáveis pela ação hemorrágica do veneno da jararaca, a jararagina, foi isolada em 1992 e é bastante estudada por pesquisadores no Brasil e de outros países. A jararagina faz parte da família das metaloproteinases, que são uma das principais responsáveis pelos efeitos locais do veneno.

Agora, uma pesquisa conduzida por um dos grupos do INCTTox demonstrou pela primeira vez como a toxina se liga aos vasos sanguíneos. O estudo, publicado na revista PLoS Neglected Tropical Diseases, descreve os mecanismos de ação da toxina e traz novas perspectivas para o desenvolvimento de medicamentos.

O trabalho representa um importante avanço, pois conhecíamos a patologia e já se sabia que a proteína era hemorrágica, mas os mecanismos através dos quais ela induzia a hemorragia ainda não estavam completamente esclarecidos. O principal desafio era justamente entender esse mecanismo.

A hipótese foi de que as toxinas hemorrágicas teriam que se localizar no tecido afetado para provocar a ruptura dos vasos sanguineos. Utilizando a técnica de microscopia confocal e a pele de camundongos como modelo experimental, a pesquisadora Cristiani conseguiu demonstrar essa hipótese. “Marcamos a toxina com uma substância fluorescente, que foi injetada na pele para determinar o caminho percorrido pela toxina. Com 15 minutos, foi possível ver a hemorragia bastante evidente. Em períodos maiores, provavelmente haveria necrose”, explicou.

De acordo com o estudo publicado, a jararagina se fixa às proximidades dos vasos, ligando-se a componentes de matriz extracelular (componentes responsáveis pela estrutura do vaso), comprometendo sua integridade e induzindo o sangramento local, que se constitui um dos principais sintomas do envenenamento.

De acordo com a pesquisadora, o veneno de jararaca também induz alterações sistêmicas tais como alterações na coagulação sangüínea, alterações cardiovasculares e renais. O soro antiofídico atualmente existente, produzido em cavalos, é muito eficaz na neutralização desses efeitos. O grande problema são as lesões no local da picada que não são neutralizadas pelo soro antiofídico. Diante disso, muitas vítimas ficam com alguma sequela grave, tais como perda da função ou até mesmo amputação do local afetado.

Ação da jararagina na pele de camundongos. 1- visão macroscópica da hemorragia induzida por 10 µg da toxina via intradérmica; 2 – degradação das fibras de colágeno na hipoderme ; 3 – acúmulo da toxina (em verde – jar-Alexa488) próxima à parede dê uma vênula (em vermelho – CD31)

Ao descobrir como a toxina age e induz a hemorragia, fica mais fácil propor algum tipo de aliado no tratamento das vítimas de envenenamento como os inibidores dessa proteína que seriam usados conjuntamente com a soroterapia.

O trabalho publicado é resultado de tese de doutorado de Cristiani Baldo, intitulada “Mecanismos envolvidos na ação hemorrágica de metaloproteinases de venenos de serpentes”, com Bolsa da FAPESP e orientação de Ana M. Moura da Silva, do Laboratório de Imunopatologia do Butantan.

O artigo Mechanisms of Vascular Damage by Hemorrhagic Snake Venom Metalloproteinases: Tissue Distribution and In Situ Hydrolysis de Cristiani Baldo e outros, pode ser lido em livre acesso em:

http://www.plosntds.org/article/info:doi/10.1371/journal.pntd.0000727

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